Muito se critica a participação política na Internet, especialmente a dos jovens, por ela não estar inserida nos processos formais de decisão política. De fato, muitos movimentos são relativamente descentralizados, com as suas lideranças dispersas na rede – isso quando os líderes são identificáveis.
Exemplo clássico e repetido por críticos da participação política informal ou descentralizada: o pessoal de Davos não tem como negociar com os líderes do movimento antiglobalização porque uma representação autorizada do grupo de oposição se faz necessária.
Outro argumento comum é a falta de compromisso de quem reduz a sua participação política a assinatura de abaixo-assinados eletrônicos ou, por exemplo, a tweets e retweets com hastags de protesto. Tais movimentos seriam, em princípio, estratégias frágeis e acomodadas de pressão política.
Por último, argumenta-se que a participação política na Internet seria quase inócua ou um simulacro de participação; que a Internet, no mínimo, seria muito menos poderosa do que anunciam tecnófilos e ativistas.
Bom, vamos lá…
Participação política na Internet não dá resultados?
Twittaram os protestos na Irã e “nada mudou”. Será que nada mudou? Não me parece razoável imaginar que uma movimentação política gere resultados imediatos. Há uma expectativa de velocidade na obtenção de resultados na Internet que não é condizente com qualquer forma de participação política que seja.
Toda mudança política possui um tempo próprio e somente se realiza a partir de situações contingentes. Apenas a título de ilustração, recordemos das demandas das décadas de 60. Muitas delas se concretizaram apenas vinte ou trinta anos depois, inclusive a própria queda da ditadura no Brasil.
O #forasarney de hoje pode representar a melhor escolha de amanhã. Ou pode não representar coisa alguma, assim como várias lutas se esvaziaram com o tempo, assim como nem a mídia fazendo todas as denúncias possíveis não conseguiu derrubá-lo ou impedir que outros políticos denunciados se reelegessem. Meios de comunicação não fazem milagre, a educação talvez.
Discussão política sem organização formal não tem valor?
Se isso é verdade, o que fazer das conversas sobre política em bares, cafés, no almoço de domingo ou mesmo dos esforços de educadores junto a seus alunos dia a dia. Que seja o simples “em quem você vai votar na próxima eleição”… nada tem valor na vida cotidiana e informal?
Não se pode tomar os cidadãos e cidadãs por idiotas. A política é um processo histórico com as suas idas e vindas que também se dão no ambiente informal. Trata-se de um fenômeno da vida cotidiana prosaica e criativa que, por vezes, é imperceptível aos especialistas: jornalistas, intelectuais e políticos. Nenhum regime ou estado de coisas cai por terra sem algum suporte da vida cotidiana, seja uma ditadura militar, a presidência de Fernando Collor ou a de George Bush. O informal dá suporte ao formal.
Em resumo
Cabe uma ressalva neste pequeno esforço de reconhecer o valor da participação política informal na Internet: é preciso evitar os mitos redentores que envolvem a tecnologia desde tempos imemoriais.
O uso da Internet na campanha do Barack Obama foi muito interessante, mas o seu poder foi sobrevalorizado. Depois das guerras, crises financeiras, Katrina, dentre outros desastres políticos e sociais, ser o candidato de oposição ao Bush não era um projeto tão difícil assim. A rigor, o “burburinho” das ruas, inclusive na Internet, sustentou as mudanças políticas maiores.
Para concluir, desde que não seja um golpe violento de uma minoria, qualquer grande mudança política, por mais emblemática ou midiática que ela seja, só ocorre após a longa sedimentação cultural de movimentos cotidianos, questionamento silenciosos que em filigrana reorganizam o tecido social. A Internet está aí para dar força a esses heróis anônimos e aumentar o comércio admirável de sentidos – retomando aqui a expressão de Santo Agostinho.


Que texto bom esse, hein?!
Faço da minha voz a tua voz, que ecoa nas linhas e entrelinhas deste texto, pois também acredito que o mundo se muda com movimentos, mesmo o mínimo que seja, pois a lesma sempre chega a algum lugar, né?!
Agora é uma grande verdade que a força da tendência é uma coisa que eu ainda não consigo mensurar…
Link | novembro 29th, 2009 em 12:15